Casanova e o homem trans...



"Tais confidências despertaram-me a piedade. Tirando da bolsa uma moeda de ouro, dei-a à aflita senhora, que verteu em lágrimas de júbilo e agradecimento.

― Prometo-lhe outra outra, senhora, mas como preço de um segredo. Confesse-me que Belino é mulher travestida.
― Pois saiba que é mesmo homem, conquanto tenha toda a aparência...
― O aspecto e as graças de uma mulher, é o que uqer dizer ― acrescentei. ― Crê então que eu não entenda?
― Engana-se, é homem; e isso é tão verdadeiro que para ingressar no teatro foi necessário submeter-se à inspeção.
― E quem procedeu ao exame?
― O reverendo confessor do nosso bispo.
― Um confessor?
― Sim. O senhor pode certificar-se consultando esse santo homem.
― Ficaria mais convencido se eu próprio pudesse proceder ao exame.
― Se Belino deixar... mas em sã consciência eu não posso interfirir, pois ignoro as suas intenções.
― Garanto que são as melhores possíveis.

Voltei ao quarto e mandei Petrônio comprar uma garrafa de vinho de Chipre. Ele cumpriu minha ordem, trazendo-me sete cequins de troco, os quais dividi entre Belino, Cecília e Marina, pedindo às duas últimas que me deixassem um instante a sós com seu irmão mais velho.

― Belino ― falei-lhe então ― estou certo de que sua conformação difere da minha! Minha cara você é uma moça.
― Não, sou homem, se bem que castrado. Passei pelo exame, não sabe?
― Deixe-me também examiná-la. Gratifico-a com um dobrão.
― Não posso, porque é evidente que o senhor me ama, e isso me é defeso pela religião.
― Mas... não teve essa dificuldade frente ao confessor do bispo.
― Tratava-se de um velho sacerdote, que por sinal só me deu uma olhadela, às carreiras.
― Assim farei eu ― respondi-lhe, estendendo a mão com ousadia."
(Memória de Casanova, 2° volume, 1744-1750, pág. 511)











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